A paisagem é uma das mais fotografadas do Brasil, mas a realidade da água conta outra história. Dados oficiais do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) colocam a Praia de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, como a mais poluída do estado em 2025, com índice praticamente zerado de balneabilidade no decurso de todo o ano.
O levantamento utiliza o Percentual de Boletins Próprios (PBP) — indicador que mede a frequência com que a água é considerada adequada para banho. No caso de Botafogo, o resultado é crítico: a praia permaneceu imprópria na quase totalidade das medições, consolidando um cenário de poluição crônica.
A explicação está em um conjunto de fatores estruturais. A praia está inserida na Baía de Guanabara, que historicamente sofre com despejo de esgoto, baixa circulação de água e acúmulo de poluentes. Mesmo com projetos de despoluição no decurso das últimas décadas, os avanços ainda não foram suficientes para reverter o quadro.
No caso de Botafogo, o resultado é crítico: a praia permaneceu imprópria na quase totalidade das medições (Wikimedia Commons)
Em São Paulo também tem uma eleita como mais poluída: A Praia do Perequê, no litoral de Guarujá, esteve imprópria para banho em 98% das semanas de 2024, segundo monitoramento da CETESB.
Apesar do índice elevado de contaminação, a faixa de areia continua recebendo visitantes no decurso do ano, atraídos através da paisagem e através da oferta gastronômica local.
Outras regiões críticas no estado
Embora Botafogo seja o caso mais emblemático — justamente por estar em área nobre e turística — o problema da balneabilidade no Rio é mais amplo.
O relatório mostra que existe outros pontos com desempenho igualmente preocupante:
Ilha do Governador: diversas praias com PBP próximo de 0%, evidenciando contaminação recorrente
Sepetiba e Zona Oeste: trechos com baixa qualidade persistente, particularmente em regiões menos urbanizadas, mas com pouca infraestrutura de saneamento
Regiões da Baía de Guanabara como um todo concentram os piores índices do estado
Esses locais têm em comum a proximidade com canais de esgoto, rios poluídos e baixa renovação da água, o que favorece a proliferação de bactérias.
Do outro lado: as praias mais limpas do Rio em 2025
Se por um lado existe regiões críticas, o levantamento também mostra um contraste importante: o litoral fluminense abriga algumas das praias mais limpas do país.
Entre os destaques positivos estão:
Praia de Grumari (Zona Oeste do Rio)
Prainha (Zona Oeste)
Praias da Área dos Lagos, como em Arraial do Cabo e Cabo Frio
Trechos de Angra dos Reis e Paraty, na Costa Verde
Esses locais registraram índices próximos ou iguais a 100% de balneabilidade no decurso do ano, ou seja, estiveram próprios para banho praticamente em todas as medições.
Em São Paulo, segundo os dados de pesquisa, as praias que estão entre as mais limpas registram a menor presença de microplástico: Ubatumirim – Ubatuba (1,6 por metro quadrado), Camburi – Guarujá (1,5 por metro quadrado) e Itaguaré – Bertioga (1,0 por metro quadrado).
O diferencial dessas praias está em fatores ambientais e urbanos:
Menor densidade populacional
Preservação ambiental
Maior circulação de correntes marítimas, que ajudam na renovação da água
Menor impacto de redes de esgoto
Grumari e Prainha, por exemplo, são regiões de proteção ambiental, com acesso mais controlado — o que contribui diretamente para a qualidade da água.
Praia de Grumari, na Zona Oeste do Rio, é a praia mais limpa do estado (Wikimedia Commons)
Um retrato desigual da qualidade da água
O relatório do INEA escancara um cenário de contraste no estado: de um lado, praias urbanas densamente ocupadas, com histórico de poluição e infraestrutura insuficiente; do outro, regiões preservadas ou menos ocupadas, com qualidade de água excelente e consistente.
Essa desigualdade evidencia um problema estrutural: o avanço urbano sem saneamento ideal ainda impacta diretamente a balneabilidade das praias mais centrais.
Riscos e direção ao público
Entrar no mar em locais com baixa balneabilidade não é somente uma questão estética — envolve riscos reais à saúde.
Entre os principais problemas associados estão:
Infecções gastrointestinais
Irritações na pele e nos olhos
Doenças causadas por bactérias e vírus presentes na água contaminada
Por isso, a direção é clara: sempre verificar os boletins de balneabilidade antes de entrar no mar, particularmente em praias urbanas.
O desafio que persiste
Apesar de avanços pontuais, os dados de 2025 mostram que o Rio de Janeiro ainda enfrenta um desafio histórico: universalizar o saneamento básico e diminuir a poluição costeira.
Enquanto isso não ocorre, o contraste se mantém — e simbólico: uma das vistas mais bonitas do Brasil abriga também a praia mais poluída do estado.
Com informações do Diario do Litoral



